BELEZA INTERIOR

VILLASNEWS

Sou um ser urbano. Daqueles que mora numa selva de pedra, cheira fumaça de gasolina, corre dos automóveis para não ser atropelado, enfrenta fila de espera no restaurante e acha bonito o que é feio nas paredes da cidade.

Quando pequeno, tinha um pé no galinheiro. Cuidava das minhas galinhas, dos patos, das codornas e dos perus. Regava as taiobas da minha mãe e comia jabuticabas no pé. Guardava o meu bodoque, andava descalço e me equilibrava em muros, mesmo aqueles com cacos de vidro pra espantar ladrões.

De tempos em tempos, volto ao interior para abastecer minha alma de jornalista e escritor. Recarregar a munição para enfrentar a guerra diária por aqui. Foi o que aconteceu na semana passada quando pegamos a estrada com destino à felicidade.

Foi lá que revi lojas com nomes de A Favorita,  A Noiva Moderna e A Barateira. Vi homens de chapéu sentados na…

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Prefácio

“Amor… Em Sonetos” é labor, laboratório e oratório.
Labor porque é o resultado de uma ação poética exaustiva sobre a palavra Amor em seu infinito percurso de inúmeros segmentos. O amor é um tema já muito explorado em todos os seus aspectos esplendorosos e trágicos. Mas é uma palavra que instiga o poeta e o leitor porque representa a peça de um grande quebra cabeça na conclusão do mosaico afetivo da existência humana. O Amor é o Santo Graal que a todos interessa.
Não é fácil falar de amor… É preciso muita sensibilidade para descobri-lo e habilidade para depois vesti-lo com teias poéticas. E submeter versos às regras rígidas do soneto não é pra qualquer um. É preciso inspiração matemática. Mas Guilherme Fadda escreve sobre o amor com a sede de quem pretende esgotar a fonte. Ele abarca completamente este tema com o seu manto poético criativo e o desmembra em múltiplos vocábulos para reconstruir o uni-verso textual . Ao poeta nenhuma nuance ou sensação escapa. Ele arquiteta poemas com uma surpreendente habilidade, como a natureza reúne elementos para a produção. Por isso este livro é também um laboratório que mescla os diversos sintomas colaterais do amor, suas feras e atmosferas. Todos os satélites que giram em torno do amor estão presentes e se revelam em queixa, alegria, prazer, dor e incertezas… Em “Redemoinho”, poema sinestésico, há toda uma nuvem de sensualidade desfeita na frustração da ausência da pessoa amada. Em “Amor Despetalado”, tudo se desconstrói na “geleira intempestiva”do tempo. Em “Amado-Amante”, o amor surge com o seu fulgor exuberante e plenitude que realiza. Mas “as soluções das nossas incertezas” estão em “Jesus é o amor… e a razão”, poema de amor espiritual que o autor também não esquece. E assim, de palavra em palavra, o amor vai se compondo mentalmente em cada verso como um imenso patchwork. E, ao final de toda a leitura, é possível ter a sensação plena de um sentimento que é para muitos uma verdadeira Pedra Filosofal, mas ao mesmo tempo está em toda parte.
A poesia tem uma linguagem transgressora que nos permite experimentar sensações diversas. O papel do poeta é inventar universos paralelos para nos permitir isto: tornar possível o impossível através da sua própria criação. Neste belo oratório que nos convida a flutuar, o poeta não pretende explicar o amor. Ao contrário, ele apresenta ao leitor suas dúvidas, indagações e incertezas, porque é muito difícil amar sem perguntas. Mas uma coisa é certa: ter este livro à cabeceira da cama é uma forma de renascer todo dia e de sempre lembrar que “Pecar?… É não saber amar.”

03/01/2012

(Este texto é um prefácio que criei para o livro “Amor em Sonetos”, de Guilherme Fadda. Ed. Multifoco, Rj.)

O Confronto Doida X Mãe

Minha filhinha pensa que eu sou um continente 100% dominado pela maternidade. Uma espécie de Ninhópolis exclusiva, que abriga o seu filhotinho e suas implicações.

Santa ingenuidade…

É verdade que as Terras-de-Ninhópolis-do-Paraíso-Unido ocupam boa parte de mim. Mas um continente é formado de muitos acidentes: desertos, pântanos, picos inatingíveis, cordilheiras geladas… Abismos.

E há dissidências.

De vez em quando, no interior do continente, estoura uma guerra entre as nações, e o sagrado se mistura com o profano – contraditórios como as tintas do Barroco: a Doida dissidente se encrespa com a Mãe, e o bombardeio atinge o território da Moça Apaixonada, que acaba perdendo terreno, Peri e torre. Mas a tola nem reage. Em todo confronto Doida X Mãe, se exila conformada em seus escombros; e quando mostra a sua cara no Território Sagrado da Maternidade, toma todo o cuidado pra não machucar o Anjo – como palestinos e israelenses deveriam fazer lá nas bandas da Cidade Velha, em Jerusalém; ou pra que ir tão longe se há tanto tiroteio aqui nos nossos morros.

Mas a Doida, não. Dominada por estranhas pulsações, emerge de certas torrentes e, como um bárbaro, invade o Território Sagrado atrás de comando. Só não assusta a criancinha, porque a Mãe, desesperada, vem à tona – como Tétis guiada pelo choro de Aquiles – e armada com o seu baby-tacape, leva a nocaute a invasora, que sempre volta refeita para infinitos rounds.

E assim, fica estabelecida, por tempo indeterminado, uma questão palestina entre as nações que subtrai dessa Mãe o domínio total do continente. Um continente marcado por combates existenciais, abdicações e eternas marchas que geram lixões de sandálias e sapatos gastos no dia-a-dia.

Derrotas maternas à parte, a bem da verdade, a Cria é o Grande Feito Materno; a Descoberta das Índias; o Cravo e a Canela que temperam o continente. Quando a mamãe olha pra ela, não há guerra, não há nada; é como se toda essa terra fosse santa – uma santa colônia a ser explorada por uma incansável predadora…

Com a velocidade de um relâmpago, a Bonitinha, numa brincadeira, alcança os picos inatingíveis e, de lá, pula numa nuvem e faz salada de estrelas; o pântano, faz dele uma piada – quem sabe o caldeirão de uma bruxa desdentada; os desertos, povoa com casinhas, bonecas, gargalhadas… E quanto às cordilheiras, com aquele foguinho que ela tem, descongelam e escorrem para os abismos que se transformam num mar de águas calmas.

Essa menina é mesmo uma enfant terrible, não se cansa! Descobre vales e vales trás-dos-montes, mergulha nas minhas fontes, depois corre pelas pracinhas que ela mesma inventa ao redor do meu regato. E, por lá, caça borboletas, espanta os pássaros e colhe as florezinhas que brotam aos montes só pra ela. A menina plantou uma primavera eterna nos jardins do continente; e apesar dos espinhos, como é doce…

-E a Doida dissidente?

-Ah… a doida… de tanto espernear, adormece e sonha…

Cristina Ribeiro